Eu me encontrei…

Moro na Europa, mais precisamente em Portugal, na cidade de Leiria. Me decidi pelo país, após oito anos de idas e vindas pelos Estados Unidos. Quatro anos na Flórida e quatro no Hawaii; a  razão e satisfação para tal, era saber que podia ter ao meu lado porções de meu amor! Isto me fazia voar e passar horas infindas em aeroportos, voos e fusos. Os meus sonhos se concentravam nas muitas vezes em que me desfiz e me desconstruí num amor inalterado, mas que fazia sentir-me  incompleta!  Correr para os braços de um filho nos faz esquecer as lutas diárias e nos liberta o espírito ansioso por um abraço.

Estar em Portugal significa voltar a correr, avançar, tentar fazer da desconstrução um inteiro! As muitas pontas soltas de minha vida, se alinham e terminou por fim, a frenética busca por família reunida.  Pensando melhor, aqui se iniciou uma outra busca: a de mim mesma…

Estar em Portugal é arrancar um grito surdo contido no coração, quando a dor me invadiu e meu chão foi retirado de mim… Muitos anos de dor fizeram esfacelar a minha alma e a mim foi retirado o direito de ser inteira como pessoa e mulher, na dignidade e respeito. Ambiguamente, estou deixando para trás aquilo que os anos não conseguiram silenciar, quando a mente teimosamente trazia à memória os ultrajes e afrontas sofridos. Foram dores demais e me faltaram estratégias de defesa. Pude, a partir de então, parar de questionar a Deus, sobre a diferença entre perdão e mágoa, desassociados dentro de mim! Começou assim, como que numa fuga, a frenética  necessidade de separar com um oceano e diferentes lugares aquilo que feriu tanto. Não me importam mais as conquistas de minha fortaleza profissional, o acolhimento que dava aos familiares e amigos, pois nesta tentativa de esquecimento do que vivi, acolhi pessoas, mas não me acolhi e não me cuidei… É como que, se estando num espaço onde o clima me favoreceu, a história me contou de sagas, o verde me deixou respirar sem asfixia, eu pudesse perceber, como num flash, tudo aquilo que era incompreendido, roubado e travado dentro de mim!

Há que se sentir saudade e muita; ninguém faz ideia da solidão dos irmãos e amigos; dos queridos que deixei, em minha nação! Porém, eu os carrego nos compartimentos secretos do coração, onde a Fonte da vida me premia com as lembranças que não desejo apagar!

Estar em Portugal é libertador quando há a chance de escapar dos rótulos que eu mesma me impus! E é no desconhecido de rostos, ruas e jardins, num ar fresco e renovado que, mais que buscar estar com filhos eu me encontrei comigo mesma e me descobri capaz de reaver o meu valor e espaço. Tenho feito isto, sem nenhuma necessidade de proteger meu mundo de invasões! Ele perdeu suas cercas e se sente livre, se encontra na força do meu caráter e respeito por mim mesma, na maravilhosa sensação de ser apenas quem, finalmente, fui um dia e voltei a ser!

Regina.

Leiria, 20 de abril de 2019.

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2 comments

    1. Querida Giovanna!

      Que coisa boa receber uma mensagem vinda de você! Meu coração se alegra quando alcança alguém e provoca nele, uma reação positiva! Escrever é um ato solitário e ao ver acesa uma luzinha que sinaliza resposta, tudo muda e faz toda diferença!

      Deus a abençoe!

      Beijo meu.

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